segunda-feira, 7 de julho de 2014

Semana inicia com predomínio de sol acompanhado do frio


A semana será marcada pelo predomínio do sol acompanhado de uma forte onda de frio.

O Estado foi muito castigado pelas chuvas intensas que caíram em junho e no começo de julho. A área mais atingida foi o noroeste gaúcho, principalmente a cidade de Itaqui, onde muitas pessoas ainda estão fora de casa porque a cidade continua com pontos alagados. O nível do rio Uruguai subiu cerca de 17 metros por causa de toda essa chuva. Mas a população gaúcha já pode respirar aliviada: esta semana vai ser de tempo aberto no Estado.

A frente fria que passou neste domingo já se afasta nessa segunda-feira, dando espaço à massa de ar polar, que vai reduzir a nebulosidade. O sol aparece mais forte e ajuda a evaporar a água acumulada. Só que a massa polar vai trazer grande queda de temperatura.

Nesta segunda, 7, o dia começa com geada entre as regiões da Campanha, Fronteira Oeste e Depressão Central. Na terça-feira o sol aparece forte em todo o Estado e a área de geada aumenta. A previsão é de geada ao amanhecer entre a Campanha, o Planato e a Serra.

A chuva volta para o Rio Grande do Sul entre os dias 12 e 13 de julho.

domingo, 6 de julho de 2014

Candidatos ao governo gaúcho fazem hoje o primeiro debate



Rádio Gaúcha realiza hoje (6), data do início do período de campanha eleitoral, o primeiro debate entre os candidatos ao governo do Estado do Rio Grande do Sul. Com início previsto para as 20h, o encontro contará com a mediação do jornalista Daniel Scola e será transmitido ao vivo pela emissora de rádio e pela TVCOM. 
Participam os candidatos Ana Amélia Lemos (PP), Edison Estivalete Bilhalva (PRTB), Humberto Carvalho (PCB), João Carlos Rodrigues (PMN), José Ivo Sartori (PMDB), Roberto Robaina (PSOL), Tarso Genro (PT) e Vieira da Cunha (PDT).
O debate será dividido em quatro blocos: o primeiro e o terceiro permitem perguntas livres entre os candidatos, o segundo contempla perguntas formuladas pela produção do programa sobre temas de interesse do Estado, e o último é dedicado às considerações finais. Foram convidados a participar todos os partidos que apresentaram candidato a governador.
Antes do debate, a partir das 19h40, a rádio apresentará um programa especial, com Sabrina Thomazi na ancoragem. Terminado o encontro, entra no ar o Faixa Especial, que irá repercutir o final do debate. 

sábado, 5 de julho de 2014

Sobe para 117 o total de cidades afetadas pelas chuvas no Rio Grande do Sul

Cerca de 15,8 mil saíram de casa


Novo boletim divulgado pela Defesa Civil na manhã deste sábado coloca mais duas cidades como afetadas por temporais no Rio Grande do Sul. No total, 117 municípios foram atingidos, sendo que 78 deles decretaram situação de emergência. Barra do Guarita e Iraí, no entanto, decretaram calamidade pública.

O número pessoas em abrigos público é de 1.676 e de desalojadas é de 14.126. Com isso, 15,8 mil gaúchos estão fora de casa. As cidades mais afetadas pela chuva continuam sendo Itaqui e São Borja. Itaqui tem 672 desabrigados e 3.138 desalojados. Já São Borja, apresenta 400 desabrigados e 2.500 desalojados.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Instabilidade persiste no Rio Grande do Sul nesta sexta

Rua Dona Sebastiana, na zona Norte, alagada
Crédito: Tarsila Pereira/Correio do Povo
A forte chuva que atinge Porto Alegre desde a noite dessa quinta provoca diversos transtornos nesta sexta-feira, especialmente no trânsito da Capital. De acordo com a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), há diversas vias alagadas, interrompidas e semáforos inoperantes. Os maiores problemas estão na zona Sul e Norte da Capital.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Detran promove três leilões reunindo sucatas e veículos de 12 Centros de Remoção e Depósitos

No total, serão ofertados 1.478 itens retidos administrativamente e não reclamados pelos proprietários

O Detran/RS promove, no mês de julho, três leilões reunindo sucatas e veículos de 12 Centros de Remoção e Depósitos (CRDs) do Estado.

No total, serão ofertados 1.478 itens retidos administrativamente e não reclamados pelos proprietários. Os interessados podem arrematar dois tipos de bens: sucatas para reciclagem ou veículos com documentação (aptos para voltar à circulação), sem restrições policiais e/ou judiciais e desvinculados de qualquer pendência legal ou financeira.

O primeiro leilão do mês acontece em Pelotas, no dia 16, e terá, no total, 475 bens para arremate. Haverá, ainda, leilões em Cachoeira do Sul (23) e novamente em Pelotas (30).

Tanto pessoas físicas como jurídicas podem participar. Para arrematar o lote, o comprador deverá apresentar, no ato, RG, CPF e comprovante de residência, se pessoa física; contrato social ou cópia autenticada, CNPJ, RG e CPF do representante, se pessoa jurídica.

Os veículos permanecem em exposição nos depósitos de origem, no dia anterior aos leilões, à disposição dos interessados para visitação, sempre em horário comercial.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Concorrentes ao Kikito

Na disputa: a organização do Festival de Cinema de Gramado divulgou na manhã desta quarta (2/7), na Casa de Cultura Mario Quintana, os concorrentes da 42ª edição do evento, que ocorre de 8 a 16 de agosto. Dos 794 inscritos, foram selecionados oito filmes nacionais, cinco estrangeiros, 15 curtas-metragens nacionais e 17 gaúchos para a disputa pelo Kikito. Além disso, foi confirmada a premiação em dinheiro:
- Essa é uma conquista que coloca Gramado mais uma vez em uma posição de destaque entre os eventos nacionais e reitera sua importância entre os festivais do gênero na América Latina – avaliou a secretária de Turismo de Gramado, Rosa Helena Volk.
Entre os longas nacionais, Os Senhores da Guerra, de Tabajara Ruas, e A Despedida, deMarcelo Galvão. Lembrando que os 17 filmes gaúchos concorrem ao Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema e serão exibidos nos dias 9 e 10 de agosto, no Palácio dos Festivais. Confira abaixo a lista completa de concorrentes:
Mostra nacional
A Despedida (2014), de Marcelo Galvão (SP)
A Estrada 47 (2014), de Vicente Ferraz (RJ)
A Luneta do Tempo (2014), de Alceu Valença (RJ)
Esse Viver Ninguém Me Tira (2014), de Caco Ciocler (DF)
Infância (2014), de Domingos Oliveira (RJ)
O Segredo dos Diamantes (2014), de Helvécio Ratton (MG)
Os Senhores da Guerra (2014), de Tabajara Ruas (RS)
Sinfonia da Necrópole (2014), de Juliana Rojas (SP)
Mostra estrangeira
Algunos Dias Sin Musica (2013), de Matías Rojo (Argentina/Brasil)
El Critico (2014), de Hernán Guerschuny (Argentina)
El Lugar Del Hijo (2013), de Manuel Nieto (Uruguai)
Esclavo de Dios (2013), de Joel Novoa (Venezuela)
Las Analfabetas (2013), de Moisés Sepúlveda (Chile)
Mostra nacional de curtas-metragens
A Pequena Vendedora de Fósforos (2014), de Kyoko Yamashita (RS)
Brasil (2014), de Aly Muritiba (PR)
Carranca (2014), de Wallace Nogueira e Marcelo Matos de Oliveira (BA)
Carta a Uma Jovem Cineasta (2014), de Luiz Rosemberg Filho (SC)
Castillo y el Armado (2014), de Pedro Harres (RS)
Compêndio (2014), de Eugênio Puppo e Ricardo Carioba (SP)
Contínuo (2013), de Carlos Ebert e Odécio Antônio (PB)
História Natural (2014), de Júlio Cavani (PE)
La Llamada (2014), de Gustavo Vinagre (SP)
Max Uber (2014), de André Amparo (MG)
O Clube (2014), de Allan Ribeiro (RJ)
O Coração do Príncipe (2014), de Caio Ryuichi Yossimi (SP)
O Que Fica (2014), de Daniella Saba (SP)
Se Essa Lua Fosse Minha (2013), de Larissa Lewandowski (RS)
Sem Título #1: Dance of Leitfossil (2014), de Carlos Adriano (SP)
Mostra gaúcha de curtas-metragens
A pequena vendedora de fósforos
Bacon ou Rúcula
Caçador
Casa de pombas
Castillo y el Armado
Descompasso
Domingo de Martas
Espelhos
Gildíssima
Hotel Farrapos
Linda, uma história horrível
O Encontro
O que ficou para trás
O Relâmpago e a Febre
Os Meninos Perdidos
Servido com Candura
Sioma – o papel da fotografia

terça-feira, 1 de julho de 2014

O Negrinho do pastoreio


Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...
Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria;. porém era muito cauíla e muito mau, muito. 
Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no invemo o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seu umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas. 
Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro; farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo... e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando... 
Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino como uma mosca, para um bafo cabos- negros, que era o seu parelheirode confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvio e a quem todos chamava somente o - Negrinho
. A este não -deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afiIhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem. 
Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria.
Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não? que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro. 
No dia aprazado, na concha da carreira havia gente como em festa de santo grande.
Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se Ihe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente, e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta... 
As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços. 
- Pelo baiol Luz e doble!...
- Pelo mourol Doble e luz!... 
Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta... 
- Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como uma colhera. 
- Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se os sete-léguas perde, o meu senhor me mata! Hip! hip! hip!... 
E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.
- Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip! 
E cortava as esporas no mouro. 
Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera. Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões.., mas sempre juntos, sempre emparelhados.
E as duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pós-se em pé e fez uma cara-volta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passa, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em um ginetaço. 
- Foi mau jogo! gritava o estancieiro. 
- Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria. 
A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, maisn de um virou as esporas para o peito de pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tiarajú, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem: 
- Foi na le! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha.buscá-las. Foi na lei! 
Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão. 
E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e baguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia. 
O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando, calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma. 
E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim: 
- Trinta quadras. tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficará aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficas de estaca! 
O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando. 
Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim. 
Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas. 
O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu. 
E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias; a estrela-d'alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejam o Negrinho e cortaram a guasca da sogra. O bafo sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas. 
O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio. 
Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo. 
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou. 
O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho. 
E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua,madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo. 
Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta -ia pingando cera no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavarn tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor Ihe marcara. 
E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu... 
Gemendo, gemendo; o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagamm-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxúns ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, fiIho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo afora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas. 
O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá... 
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou... 
O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-Ihe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu... 
E como já era de noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-Ihe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo, é que então ele se foi embora, sem olhar para trás. 
Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro.., e que tudo isto cabia folgado dentro dem um formigueiro pequeno... 
Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas. 
Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho. 
A peonada bateu o campo, porém, ninguém achou a tropilha e nem rastro. 
Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo. 
Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!... 
O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta tordilhos.., e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu...
Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.
E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope. 
E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu. Correu no vizindário a nova dó fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro.